Re-publicando um ótimo artigo de Silvio Meira, que explica a Lei da Conservação dos Lucros, de Clayton Christensen, citada por Tim O’Reilly como uma das regras que definem a Web 2.0 na postagem anterior. O artigo está está licenciado sob uma Licença Creative Commons.
Leis, OSS… força… e falta dela
Publicado em 08/10/2004 por Silvio Meira.
Você juntou gente, criou um projeto do outro mundo, inovador, os clientes não podem esperar pelo valor que suas soluções vão agregar a seus negócios, como se não bastasse sua turma se juntou ao redor da mais ecológica das formas de construção de conhecimento, o modelo de código (ou conhecimento) aberto, e tudo vai muito bem… com um pequeno - mas mortal, para seu negócio - problema: como pagar as contas, no fim do mês, com os resultados de uma plataforma que gregos (seus parceiros de negócio) e troianos (gente de fora, como o governo) teimam em entender que deveria servir a tudo e a todos, de graça?
Se a resposta fosse fácil, pode ter certeza de que Bill Gates já tinha transformado a Microsoft em uma companhia baseada em OSS. Nem a discussão é fácil, pois o mundo está cheio de gente falando de cátedra sobre o assunto e suas implicações econômicas, sociais e empresariais sem nunca ter escrito uma linha de código e, pior, sem ter que, ao fim do mês, amealhar os preciosos trocados para pagar salários, infra-estrutura, aluguéis e… impostos. Teoria, parecem esquecer, é tudo aquilo que tem uma boa aplicação prática.
Pois bem, nos EUA acontece todo ano uma conferência sobre negócios “abertos”, de software, a Open Source Business Conference (SBC2004), que rolou um destes dias em San Francisco. Tão aberto, o evento, que o site da anterior já desapareceu e o endereço já aponta para a próxima (você já pode gastar o seu para se inscrever, é aos 5 e 6 de abril de 2005). Mas Phil Windley estava lá e fez, em seu blog, um bom resumo das conversas, com um link para a palestra de Clayton Christensen no topo. Isso foi em março deste ano, mas está tão atual como se tivesse sido ontem.
Christensen tem uma explicação interessante, e geral, para os negócios que fazem dinheiro, dentro dos cenários específicos em que tal acontece. Uma das regras gerais é dada pela Lei da Conservação dos Lucros (LCL): “quando os lucros desaparecem em um estágio da cadeia de valor, porque um produto se torna modular e comoditizado, a oportunidade de ter lucros mais atrativos com produtos proprietários (fechados) vai emergir, usualmente, em um estágio adjacente àquele onde os lucros desapareceram”. Ou seja, quando a IBM padroniza, modulariza e comoditiza o PC, o lucro sai daí (pelo menos no modelo “normal” de negócios) e aparece na camada de cima, de software, onde… Bill Gates é “construído” pela própria IBM. Não é difícil imaginar, hoje, porque a empresa de White Plains tem uma estratégia para Linux, para se contrapor ao desktop de Gates, na esperança de que… à medida que o desktop se comoditiza… como é que é mesmo?
Se o desktop - o sistema operacional do desktop - se comoditiza e pode ser qualquer um, é muito provável que ele vai poder ser qualquer um mesmo, grátis, e ninguém vai ganhar qualquer dinheiro aí. Para os interessados, uma boa leitura (de alerta) sobre o estado dos negócios de open source é o excelente texto The Open Source Paradigm Shift, de Tim O’Reilly, publicado em maio deste ano. O’Reilly diz, basicamente, que ainda estamos no princípio da história de Open Source e que o campo deveria ser tratado (também) como um espaço de pesquisa séria, sobre as conseqüências econômicas, de modelos de trabalho e negócios, seus efeitos em cadeia e em rede e, principalmente, qual a relação do paradigma com o entendimento de software como serviço. Coisa que parece, aliás, muito quente, com companhias de todos os tipos e tamanhos (lucros, vide Google), usando ambientes e plataformas desenvolvidas sob a ótica open source para reduzir seus custos (e não só de transação), aumentar seus lucros e… sem retornar (ainda…) parte destes resultados para os responsáveis pelas plataformas de que fazem uso. O’Reilly leu Thomas Kuhn.
Uma conversa muito interessante, para quem tem tempo, é a do próprio Clayton Christensen na OSBC2004, um áudio de mais de hora e meia que está em IT Conversations, com O’Reilly na audiência e dando pitacos legais, para a qual as transparências, esquisitamente, estão aqui… na Coréia. Uma das idéias centrais da palestra é a Lei da Conservação da Modularidade (LCM), que serve de base para a LCL. A LCM diz que “em determinado estágio de uma cadeia de valor, quando a funcionalidade e confiabilidade ainda não são boas o suficiente, a arquitetura deve ser proprietária e interdependente de forma a otimizar performance. Como conseqüência, as arquiteturas dos estágios adjacentes de agregação de valor devem se tornar modulares e conformáveis, de forma a otimizar o que ainda não é bom o suficiente”. Na plataforma Windows, as aplicações têm que ser sub-otimizadas, porque o processo de otimização do sistema operacional leva a isso… e resulta num monte de dinheiro sendo ganho no nível de negócio do sistema operacional. As evidências estão aí, e não implicam em que não se ganhe (muito) dinheiro ao redor de Windows. No caso reverso, de software aberto, como a plataforma (Linux, MySQL, Apache) é modular e conformável, ela acaba tendo que ser integrada a algum nível adjacente da cadeia de valor para criar valor por lá (como fazem Google, Amazon…). No caso de firmas verticais, como a IBM, fica mais fácil fazer as devidas integrações, mesmo quando as plataformas são fechadas e o processo só está sendo levado a cabo para manter os lucros “atrativos”, como quer a LCL.
O problema que resta para os mortais comuns que estão do lado de cá do mercado (e normalmente desassistidos pelas “leis”, a não ser quando nos juntamos em muito grande número) é descobrir como, ou se, algum dia, haverá um conjunto de modelos de negócios (em rede) que seja ao mesmo tempo social e econômico-financeiramente sustentável. Isso sem que tenhamos que comprar (ou trabalhar para) a IBM ou rezar para que o governo (brasileiro) pare um pouco para pensar em que modelos de negócio de software são - dentro do cenário mundial - interessantes para o país e que deveriam, como tal, servir de base para pelo menos parte da política nacional do setor. Falando nisso, o setor de software, no Brasil, do ponto de vista político, não está pendendo nem para o aberto nem para o fechado, nem para o modular nem para o proprietário. Está em ponto morto, quase engatando uma ré, segundo alguns críticos que tenho ouvido. A esperança parece ser a força que umas duas dúzias de companhias estão fazendo para atingir o mercado internacional, antes de serem atingidas, aqui, por ele.